Os governantes e a população normalmente observam a administração de
perspectivas bem distintas. Quem está no poder, como não deixa de ser
natural, analisa a própria gestão a partir daquilo que realiza: as obras
que constrói, o dinheiro que investe, as inaugurações que promove. Para
o povo, o ponto de vista é outro. Mais importante que a quantidade de
realizações ou a quantidade do dinheiro aplicado é o resultado prático
disso na vida cotidiana. Construir uma bonita escola não é sinônimo de
garantir bom nível de educação.
Gastar muito dinheiro não significa
serviço de qualidade. Políticos raramente entendem o porquê de
trabalharem muito e nem sempre serem reconhecidos. Não percebem que uma
coisa não estará relacionada à outra se o produto de todo esse esforço
não for satisfatório. Por tal razão, há mais de década especialistas da
área discutem a chamada “gestão por resultado” – modelo de gerenciamento
voltado para a avaliação objetiva dos ganhos concretos obtidos. É essa
efetivação da ação governamental que, de fato, interessa à população.
Nesse critério, o candidato do PT à Prefeitura de Fortaleza terá de se
rebolar para explicar alguns indicadores sobre as duas áreas mais
importantes de uma administração municipal. A cidade, administrada pelo
partido há sete anos e dois meses, já havia acumulado desempenhos
péssimos nas avaliações sobre a qualidade da educação. Agora, sai-se
muito mal em relação ao atendimento do Sistema Único de Saúde. No caso
do SUS, a atribuição não é exclusiva do Município, mas é a Prefeitura a
principal responsável por coordenar o processo no âmbito local. O
desempenho nessas áreas é algo muito caro ao eleitor petista. Aquele que
for escondido para representar a continuidade da gestão Luizianne Lins
terá de gastar retórica para explicar as estatísticas.
VIAGENS E PROBLEMAS
Impressiona
a capacidade da Prefeitura de Fortaleza de transformar assuntos bobos
em crises. Quando envolve viagem de Luizianne Lins, nem se fala.
Raramente a prefeita se ausenta do País sem deixar para trás uma
confusão política. Custava ter mandado um papel para a Câmara Municipal
informando sobre a ausência?
OS HUMORES NA OPOSIÇÃO
Pelo
Twitter, o vereador Marcelo Mendes (PTC) informou à coluna que assinou
requerimento que pedia mudança na liderança oposicionista na Câmara
Municipal porque é favorável ao novo modelo, mais democrático. “Mas
nunca organizei (movimento) ou quis ser líder na Casa”, ponderou. E
acrescentou: “Liderança me foi várias vezes oferecida desde 2008 e nunca
me senti à vontade para aceitá-la”.
Não é nada bom o
clima na oposição municipal. Embora haja um líder formal, e antes tenha
havido outros, não existe unidade e nenhum dos parlamentares tem
ascendência sobre os demais, tampouco condições de coordenar o trabalho
conjunto.
A situação não chega a ser surpreendente. Não há
perspectiva de os partidos não-alinhados com o Poder Executivo se unirem
contra o candidato do PT. Desse modo, a tendência é de que seja mesmo
cada um por si.
O PROBLEMA ESTÁ VIVO
Os
alicerces da economia brasileira foram fundados no trabalho escravo e
essa situação se reflete no Brasil de hoje. Para cada ano de história
sem escravidão, o País teve três sob a égide do regime. O Instituto de
Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) mostra o quão presente é
essa chaga do passado. A renda média da população negra é quase a
metade do que ganham os brancos. O índice de escolaridade também destoa.
A questão não é apenas de classe. Todos os indicadores relacionados
mostram que, na comparação entre brancos pobres e negros na mesma
condição, o segundo grupo também tem renda pior e menor escolaridade. O
problema está presente porque gerações se recusaram a fazer qualquer
coisa. Ao libertar os escravos, o governo brasileiro não adotou política
alguma para incluir essa população. Mais de um século depois, surgiu o
modelo de cotas. Ele é imperfeito, parcial e não resolve os problemas
sem criar outros tantos. Mas é o que de mais consistente se propôs fazer
até hoje. A questão que se coloca aos brasileiros é: se não forem as
cotas, quais serão as políticas para superar as desigualdades?
Permanecer sem fazer nada deixou de ser uma opção há muito tempo. A
mesma negligência em relação á necessidade de superar as desigualdades
se percebe na questão regional. O Brasil não pode ter políticas de
desenvolvimento genéricas, diante do princípio de que todos devem ter
condições similares para crescer. Também há séculos que são necessárias
ações coordenadas para superar o desnível entre Norte e Nordeste e as
demais regiões. Os contrastes, em ambos os casos, ocorrem para o
prejuízo de todos.
A melhor imagem é expressa pela
jornalista Miriam Leitão: o Brasil avança como uma escavadeira, ao
carregar o entulho do seu passado. Ele está vivo e nos assombra.
Postada:Gomes Silveira
Fonte:O Povo

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