O lado humano de Oscar Niemeyer engrandece mais ainda o genial arquiteto que ele foi. O ativista político, que ajudava os amigos e os colegas de partido tinha um coração grande e solidário. Foi comovente a viúva de Luiz Carlos Prestes, na televisão, contando que o marido ao voltar do exílio, sem emprego, sem nada, ganhou de Oscar um escritório para trabalhar e um apartamento para morar. Ajudava quem o procurava. Na sua modéstia, dizia que ' urbanismo e arquitetura não acrescentam nada. Na rua, protestando, é que a gente transforma o país.”
Era um gozador que tinha medo de avião. Só andava de automóvel ou navio. Nas suas constantes viagens a Brasília, na época da construção, procurava sempre companhia, para não viajar só. Paulinho Jobim, filho de Tom, contou na TV que um dia, Oscar Niemeyer encontrou um amigo na rua, de bermuda, indo pra praia. Parou o carro e convidou-o para acompanhá-lo na visita a uns terrenos , ali perto, coisa de algumas horas. O inadivertido amigo entrou no carro e veio parar em Brasília. Voltou ao Rio quinze dias depois vestido na mesma bermuda.
O poeta das curvas e do concreto gostava de conversar. Molhava a palavra com boas doses de uísque puro, sem água e sem gelo, à moda cowboy. Foi tomando uns goles que nos aproximamos. Nos conhecemos num almoço que terminou à noite no apartamento do ministro Luciano Brandão, aqui em Brasília. Quando tentei ir embora alegando que estava tarde e que minha mulher estaria preocupada, ele disse ´fala que estava aqui comigo.”
-Então faça um bilhete, pedi.
O ministro Luciano trouxe papel e caneta. Ele escreveu, guardei no bolso e continuamos conversando . Cheguei em casa tarde, a mulher já dormia. A bronca veio na manhã seguinte, quando me lembrei do salvo-conduto. Estava lá: “ Edilma, aprendi muito com o seu marido. Oscar”, Claro, coloquei num quadro.
Em entrevista à Folha, em 1984 , falando sobre a construção de Brasília, ele disse: “Quando cheguei lá, a terra era agreste. Tomávamos caipirinha, ríamos, todos juntos, operários, engenheiros; dava a sensação de que o mundo seria melhor. Quando inaugurou, veio a muralha separando pobres e ricos, e Brasília virou uma cidade como as outras.”
Oscar Niemeyer tinha medo da morte. Um dia ele perguntou ao físico nuclear Ubirajara Brito, seu amigo, como seria o fim do mundo. O físico fez uma exposição rápida sobre o esfriamento do planeta, mas fez questão de ressaltar que tal catástrofe só ocorrerá daqui a milhares de anos. E Oscar, preocupado: - quer dizer que estamos fritos, né Bira?
Ele mesmo escreveu: “O problema da morte sempre me acompanhou e a ideia de desaparecer me angustiava. Com tristeza, ainda menino, imaginava que de um dia para o outro não mais veria meus pais e irmãos, as montanhas, rios, mares do meu país. Pensamento que com o tempo se tornaram mais frequentes nas minhas solidões.”
Wilson Ibiapina Cearense que mora em Brasília desde 1970, diretor da Sucursal do Diário do Nordeste em Brasília
Carolina Nogueira
Jornalista que nasceu em Brasília, morou cinco anos fora e voltou a viver no Planalto Central
"Brasília é uma obra de arte em forma de cidade. O uso do concreto com suas curvas e sinuosidades oferecem poesia à capital brasileira. É como se Niemeyer, de alguma forma, tentasse tornar Brasília humana, mesmo com tanto concreto. Para quem vive há algum tempo na cidade, o legado de Niemeyer faz parte do cotidiano. Saber que essa cidade carrega o traço deste arquiteto traz a mística do povo brasiliense que também é lutador e resiste às injustiças sociais que são presentes por aqui"".
Mayrá Lima
Jornalista cearense, mora em Brasília há 5 anos
"Quando, em 2007, eu disse que ia morar em Brasília, muita gente torceu o nariz. Ouvi comentários favoráveis (poucos), negativos (a maioria), mas um deles, em especial, ficou bem marcado em minha lembrança: Brasília é uma cidade pra você odiar ou amar. Confesso que, mais tarde, me descobri incluída neste segundo grupo.
Se, antes, falar de Brasília era o mesmo que lembrar escândalos políticos, hoje são outros pensamentos e palavras que me remetem à Capital Federal: respeito, natureza, manifestações culturais, civilidade, Oscar Niemeyer. Sim, o mestre arquiteto impregnou Brasília de tal forma que se tornou impossível falar de um sem lembrar o outro. Se Brasília é hoje este imenso museu a céu aberto (e que céu!), é tudo “culpa” desse gênio dos traços. Falar de Brasília é – cada vez mais – falar de Niemeyer. Cada um deles mais imortal que o outro.
Postada:Gomes Silveira
Fonte:Diário do Nordeste
Fonte:Diário do Nordeste
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