O brasileiro descrevia seu estilo audaz como uma “arquitetura da invenção”
Rio de Janeiro.
Oscar Niemeyer imaginou e desenhou grandes marcos da arquitetura
mundial seguindo os passos de sua poesia própria, as curvas tropicais do
Rio de Janeiro e a ideologia comunista. Lúcido até os últimos dias com
104 anos, planejava levar adiante seus projetos, depois de deixar um
legado de centenas de obras distribuídas por todo o mundo.
Os
traços leves e certeiros não se apagarão. Traduziram sua maneira
moderna, inovadora e ousada de enxergar o mundo em mais de 70 anos
debruçados sobre sua arte. Nem mesmo o centenário o afastou da
prancheta. O complexo arquitetônico Caminho de Niemeyer, em Niterói
(RJ), projetado e assinado por ele, ainda está em construção.
O
arquiteto morreu ontem à noite no Hospital Samaritano, no Rio de
Janeiro, vítima de infecção respiratória. Ele estava internado desde 2
de novembro. Ele completaria 105 anos próximo dia 15. Inicialmente
acometido por uma desidratação, seu estado de saúde foi se agravando ao
longo dos 33 dias em que esteve internado.
Por conta de
insuficiência renal, Niemeyer começou a fazer hemodiálise a partir do
dia 19 de novembro. Com dificuldades respiratórias, foi submetido a
fisioterapia respiratória. Esse quadro se manteve estável até
segunda-feira, quando exames indicaram piora na saúde do arquiteto.
Ontem
pela manhã o arquiteto sofreu uma parada cardiorrespiratória e passou a
respirar por meio de aparelhos, segundo o médico Fernando Gjorup. A
situação se agravou ao longo do dia, resultando na morte do arquiteto, à
noite. Ele estava acompanhado por dez familiares, entre eles a mulher,
Vera.
O velório será realizado no Palácio do Planalto, sede do
governo federal, em Brasília. O corpo do arquiteto volta ao Rio à noite e
permanecerá em sala fechada durante a madrugada no Palácio da Cidade. O
enterro está previsto para ser realizado no Cemitério São João Batista
na tarde de sexta-feira.
Curvas
Em sua
mais conhecida construção de palavras, ele revelou sua base de
inspiração ao descrever que “não é o ângulo reto que me atrai, nem a
linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a
curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu País,
no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher
preferida”.
O arquiteto carioca, nascido em 15 de dezembro de
1907, ficou famoso por projetos que se tornaram cartão-postal de Belo
Horizonte, no bairro da Pampulha, nos anos 1940, e de Brasília, dez anos
mais tarde, com a construção da nova capital federal.
De olho nas
formas barrocas do Brasil colonial e contra a postura rígida do Estilo
Internacional, escola do pós-guerra, Niemeyer perseguiu uma arquitetura
orgânica, aliada às formas da natureza, tomando a dianteira do
modernismo brasileiro.
Formação
Niemeyer
formou-se engenheiro arquiteto no Rio de Janeiro, em 1934. Trabalhou de
graça nos anos seguintes no escritório de Lúcio Costa e Carlos Leão,
participando dos estudos para a construção da sede do Ministério da
Educação e Saúde no Rio, conhecido com Palácio Capanema e considerado o
primeiro monumento do modernismo na América Latina.
Foi nessa
época que travou contato com o arquiteto franco-suíço Le Corbusier
(1887-1965), pensador revolucionário que exerceu grande influência nos
artistas brasileiros durante suas visitas ao país.
No escritório
de Lúcio Costa, Niemeyer também teve oportunidade de trabalhar em 1939
no Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York, primeira amostra ao
público internacional da nova arquitetura que vinha sendo feita nos
trópicos.
Anos mais tarde, em 1947, Niemeyer voltaria à mesma
cidade para projetar com um grupo de arquitetos renomados, incluindo Le
Corbusier, a sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.
Considerado
como um dos artistas brasileiros mais reconhecidos no exterior, recebeu
o prêmio Pritzker de Arquitetura em 1987 e o Leão de Ouro da Bienal de
Arquitetura de Veneza em 1996, entre muitos outros.
Comunismo
Niemeyer,
que sempre afirmou seu voto a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), se
considerava um comunista e foi até o fim da vida um defensor e amigo do
líder cubano Fidel Castro, homenageado aos 80 anos com a Plaza Niemeyer,
no centro de Havana.
Niemeyer descrevia seu estilo audaz como uma
“arquitetura da invenção”, com edifícios que parecem esculturas
abstratas, cujas linhas surpreendentes influenciaram várias gerações de
arquitetos.
O Parque Ibirapuera e o edifício Copan, ambos em São
Paulo, do começo dos anos 1950, o Sambódromo do Rio (1983), o Museu de
Arte Contemporânea de Niterói (1991) e o Museu Oscar Niemeyer, em
Curitiba (2003), são outros projetos que se transformaram em
cartão-postal do Brasil.
Tais projetos consagraram o estilo livre e lírico do arquiteto, aliado a uma nova técnica do concreto armado, criando formas surrealistas, como um museu com cara de flor estilizada ou nave espacial (em Niterói-RJ) à beira-mar, ou no formato de um olho (Curitiba-PR).
“A arquitetura não interessa, o que interessa é a
vida”, repetiu diversas vezes o arquiteto em entrevistas quando estava
prestes a completar 100 anos. Entre as realizações no exterior, deixou
sua marca em diversos países, a começar pela França, onde viveu na
capital durante os anos 1960, na época da ditadura no Brasil.
“Segui o bom caminho”
“O
que vale é a vida inteira, cada minuto também, e acho que passei bem
por ela ... Quando olho para trás, vejo que não fiz concessões e que
segui o bom caminho. Isso é o que dá uma certa tranquilidade”, disse
durante homenagem em seu centenário.
Nos últimos anos, o arquiteto
começou a apresentar alguns problemas de saúde. Foram três internações
em 2012. Em maio, um quadro de infecção respiratória e desidratação fez
com que ele ficasse no hospital por mais de duas semanas. No mês de
outubro, voltou a se sentir mal e ter nova desidratação, tendo alta 11
dias depois.
Família
Niemeyer foi casado
por 76 anos com Annita Baldo, sua primeira mulher. Ele se casou com a
segunda esposa, a assistente de muitos anos Vera Lúcia Cabreira, em
2006, aos 99 anos. Em junho, ele perdeu sua única filha, Anna Maria
Niemeyer, que morreu aos 82 anos.
Postada:Gomes Silveira
Fonte:Diário do Nordeste
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