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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Quilombolas - Comunidade exalta cultura secular


São Gonçalo é reverenciado, por meio de um folguedo religioso, no Sítio Veiga, em Quixadá

Dança de São Gonçalo. Só existem dois homens. O restante são mulheres fotos: alex pimentel

Quixadá A dança é uma das mais expressivas formas de exaltar a alegria de um povo. Disso a comunidade do Veiga sabe. Mais ainda o Mestre da Cultura Joaquim Ferreira da Silva, o Joaquim Roseno. É ele quem puxa a mais de meio século o cordão da jornada de São Gonçalo, um folguedo religioso em saudação ao santo violeiro, marcado com dança de terreiro durante o dia inteiro. Da alvorada ao fim do dia são 12 jornadas, comandando sete pares. Pausa, apenas para descanso, do corpo, porque a alma não precisa disso não. Esse ritual, celebrado desde o início de 1900 em meados de novembro, foi realizado mais uma vez, neste fim de semana, no Sítio Veiga, em Quixadá.

"São Gonçalo é um santo, muito milagroso. É de Deus amado e de todo o povo. Quem a São Gonçalo serve, será servido. É de Deus amado. É de todo o povo admirado", e assim começa a cantoria ao ritmo do tambor e da viola enfeitados de fitas coloridas. Os dois partidos ganham colorido mais discreto.

As vestimentas brancas, de linho do campo, recebem cortes de faixas anil e rosadas, para dividir os grupos. À frente dos dançantes, o Mestre e seu acompanhante, o sobrinho Osvaldo Ferreira.

O restante é tudo mulher, todas descalças, batendo os pés no chão de barro. Mas, para tornar o arrastado mais suave, sempre aparece alguém no intervalo das jornadas para molhar o chão.

Novo lugar

Este ano a celebração festeira ganhou novo lugar, o terreiro do filho de Joaquim Roseno, Edmundo Ferreira. Mas em breve caberá a Osvaldo Ferreira, sobrinho do Mestre da Cultura, assumir o comando das jornadas. Mestre Roseno, hoje com 87 anos, confessa estar cansado. O corpo já dói de tanto dançar. Não reclama, mas um dia não vai mais aguentar. "É preciso ter vigor e disposição para não deixar a poeira baixar e se o comandante esmorece os comandados também amolengam o passo. Nessas horas é melhor ter alguém mais jovem pra festa não parar", reconhece ele.

Sobre os motivos do ritual dançante, de acordo com os quilombolas do Veiga, o santo gostava de festa e, como todo servo de Deus, dedicava-se a ajudar aos outros. Nas suas andanças de peregrinação recebeu pedido de proteção para as moças de um lugar, para não se perderem na vida, não caírem em tentação. Como solução, inventava festa à toa e passava a tocar a viola, até matá-las de cansaço.

Milagre

Exaustas de tanta dança, acabavam dormindo. Nessa história acabou surgindo milagre por todos os cantos e São Gonçalo se tornou muito respeitado. Difícil, porém, dar canseira nas moças do Veiga. As mais novas também estão se interessando pelos passos do santo. Estão sempre dispostas, e se for festa das boas, viram a noite. Todavia, segundo o líder comunitário Antonio Vicença, quando a dança de São Gonçalo surgiu naquelas bandas somente as mulheres participavam. Um antropólogo do Incra, José Daguia, fez pesquisa.

Os traços históricos apontam para Mãe Luzia, a matriarca quilombola do Veiga, como iniciante da dança naquele lugar. Ninguém sabe informar como surgiu o par de homens no rito. Outra curiosidade está nos pés dos dançarinos. Mestre Roseno e o sobrinho participam calçados. As mulheres, descalças. Nem mesmo os mais velhos da comunidade sabem os motivos da diferença. O público fica curioso, mas se é tradição, deve ser respeitada, destaca o líder.

Dedicação

Quem tem se dedicado muito à organização do folguedo de São Gonçalo é Rosimeire Maciel, filha de Joaquim Roseno. É ela quem bate de porta em porta em busca de prendas para o almoço em homenagem ao santo. Toda a comunidade é convidada para a refeição especial. A vizinhança também participa.

O aposentado José Pedro Sobrinho acompanhou uma caravana de Monte Castelo, um distrito loalizado no vizinho município de Choró. Foram mais de 45 quilômetros até a latada do Veiga, na cidade de Quixadá.

Ele ficou impressionado com a hospitalidade e com a rica herança cultural. Dança, almoço e dança novamente. De vez em quando um pedido ao santo. E mais uma jornada de dança se segue. Só param quando todos são atendidos, explica Mestre Joaquim Roseno.

Mais informações:

Comunidade do Sítio Veiga Serra do Estevão Município de Quixadá

Telefone: (88) 9275.0370

Sertão Central



Postada:Gomes Silveira
Fonte:Diário do Nordeste
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